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23/09/2014
Vãos Protendidos - Construção Mercado- Reportagens -ed 126
Vãos Protendidos  - Construção Mercado- Reportagens -ed 126 Dentre as vantagens apontadas por construtores e projetistas acostumados a trabalhar com essa tecnologia estão a qualidade do sistema, a otimização do canteiro, a redução na quantidade de mão de obra e a elevada produtividade. No entanto, eles também afirmam que impera no setor o desconhecimento sobre as lajes protendidas.
Relativamente comum na Europa e nos Estados Unidos, as lajes protendidas também vêm ganhando espaço no Brasil, principalmente na construção de arenas esportivas, edificações comerciais e canteiros de infraestrutura.
Dentre as vantagens apontadas por construtores e projetistas acostumados a trabalhar com essa tecnologia estão a qualidade do sistema, a otimização do canteiro, a redução na quantidade de mão de obra e a elevada produtividade. No entanto, eles também afirmam que impera no setor o desconhecimento sobre as lajes protendidas.
"O grande potencial de crescimento da utilização de elementos protendidos está na verticalização, com aplicação em edifícios altos, a exemplo do que ocorre em outros mercados, e em combinação com outros sistemas construtivos, como estruturas metálicas", afirma Íria Lícia Doniak, presidente-executiva da ABCIC (Associação Brasileira de Construção Industrializada de Concreto). Para ela, apesar da escassez de mão de obra ser uma forte aliada da industrialização da construção, a carga tributária e a falta de mecanização ainda são problemas a serem driblados pelas construtoras.
Versatilidade
Existem três tipos de lajes protendidas: alveolares, maciças ou nervuradas. No primeiro caso, as peças são moldadas ou extrudadas em indústria. Com armação em fios e cordoalhas de aço para protensão, necessita de mão de obra apenas para posicionar os aços, operar a máquina extrusora, cortar e transportar as lajes.
Conhecidas como lajes cogumelo, as maciças são moldadas in loco com vãos de até 7 m, sem vigas. Quando a demanda é por vãos maiores, a opção é adotar vigas chatas protendidas, com lajes nervuradas entre elas, para manter a face inferior num mesmo plano. "A partir da definição do sistema construtivo, o calculista precisa especificar como se dará o tensionamento do aço, se pré ou pós-tensão", afirma Eugenio Luiz Cauduro, projetista de estruturas da Cauduro Consultoria.
Ele explica que na pré-tensão, ou pré-tração, o processo de instalação é feito industrialmente. Já na pós-tensão ou pós-tração a concretagem in loco favorece o tensionamento.
Processo
O aço é posicionado em um tubo, chamado bainha, de modo a isolar os fios do concreto. Depois de posicionado de acordo com o projeto, são colocadas as ancoragens. Após o concreto ter adquirido a resistência é feito o tensionamento do aço a partir da instalação de macacos hidráulicos.
O processo muda para os casos em que são utilizados sistemas com cordoalha engraxada, que possui características anticorrosivas e capa de PEAD (polietileno) extrudada em todo o comprimento, eliminando a necessidade de injeção de pasta de cimento e água, e caracterizando o sistema como pós-tração sem aderência, uma vez que o aço não entra em contato direto com o concreto.
"A pós-tração tem importante aplicabilidade na indústria para situações em que a força total especificada no projeto excede a capacidade da pista de protensão utilizada na pré-tensão ou quando não é possível aplicar a força de protensão total", explica Cauduro.

Quebra de paradigmas

Quais as principais dificuldades em calcular lajes protendidas?
Atribuo dois fatores: o primeiro é que o mercado ainda é muito pequeno e os profissionais com experiência necessária são escassos, o que desmotiva construtoras e projetistas a investirem para se atualizarem na análise e dimensionamento de estruturas com protensão. A segunda questão é o alto custo dos softwares para projetos de protensão, que são geralmente importados e exigem do projetista treinamento e tempo de preparação para obter resultados confiáveis.

Por que muitas construtoras brasileiras ainda são relutantes em adotar sistemas protendidos em construções residenciais, por exemplo?
Por questão cultural. Os primeiros projetos protendidos foram importados da Suíça e da França para serem executados em viadutos e pontes nas décadas de 1960 e 1970. O preço do aço, nesta época, dificilmente compensava a aplicação em projetos de menor porte. Dessa época ficou a ideia de que protensão não se aplica em casos de menor porte ou de estruturas com outras características, o que leva os projetistas a sequer levantar a possibilidade de usar protensão.

Em que estágio esse estudo deveria ser elaborado, então?
Um projeto de edificação passa por três etapas: o estudo preliminar, o anteprojeto e o projeto executivo, sendo que a estimativa de custo do sistema protendido deve ser avaliada na primeira etapa. O fato é que poucos projetos hoje em dia passam pela fase de estudo preliminar, deixando a escolha do sistema de lajes à mercê das preferências de projetistas ou construtores.

Podemos dizer que os sistemas protendidos são mais seguros do que o concreto armado?
Independente do sistema adotado, segurança é uma questão de norma técnica e o que define um projeto benfeito, bem-executado e seguro é o cumprimento da regulamentação e das etapas construtivas de acordo com a melhor solução adotada.

Quais as principais diferenças de cálculo para as diferentes lajes protendidas?
O sistema alveolar é um produto industrial, previamente dimensionado e testado e que se aplica de acordo com as cargas e vãos necessários. Já os demais tipos de estruturas protendidas requerem análise e dimensionamento próprio, caso a caso.
 
Normas técnicas
ABNT NBR 6118 - Projeto de Estruturas de Concreto
ABNT NBR 6120 - Cargas para o Cálculo de Estruturas de Edificações
ABNT NBR 14931 - Execução de Estruturas de Concreto
ABNT NBR 14861 - Lajes Alveolares Pré-moldadas de Concreto Protendido

O que justifica a adoção de lajes protendidas?
Luís Navas - A grande vantagem das lajes planas protendidas é o ganho de pé-direito em edificações verticais devido à sua espessura. O ganho em altura na espessura da laje chega a proporcionar mais um ou dois pavimentos.
Daniel Lopes Garcia - Temos clientes que economizaram 100 dias na obra por conta da mudança de concreto armado para protendido. Quando o projeto já é concebido com protensão, ganha-se agilidade em fundação, estrutura, garagem e pessoal.

Quais tipos de protensão são mais utilizados no Brasil?
Eugenio Luiz Cauduro - Em edifícios comerciais, muitas construtoras trabalham com lajes alveolares protendidas industrializadas devido à praticidade e economia de mão de obra. Outra opção são lajes protendidas do tipo cogumelo que, apesar de moldadas in loco, eliminam praticamente todas as vigas.

Onde a tecnologia é mais disseminada?
Cauduro - As regiões Nordeste e Centro-Oeste estão mais habituadas a adotar esse sistema porque tomaram para si o desafio de empreender obras protendidas, diversificando a atuação. Também no Espírito Santo os calculistas têm concebido muitos projetos com protensão. Têm explorado inclusive sistemas de laje nervurada tridirecional, com duas nervuras a 45º nos cantos e uma terceira dimensão perpendicular às vigas, aliviando o peso das lajes.

No restante do País, o mercado está pronto para absorver essas tecnologias?
Cauduro - O sistema já é bastante difundido, mas faltam projetistas habilitados ao cálculo estrutural.
Íria Lícia Oliva Doniak - Além de mais projetistas, é preciso que conheçam as diversas tecnologias de protensão, entendendo que não precisam se limitar a trabalhar apenas com uma estrutura de lajes pré-fabricadas. Em edificações altas, por exemplo, é possível mesclar sistemas alveolares com sistemas moldados in loco, criando estruturas mistas, que asseguram o contraventamento no núcleo rígido, mas com pré-fabricados de concreto e lajes
alveolares protendidas.

Quais as principais diferenças no cálculo?
Cauduro - O cálculo estrutural de concreto protendido é especial para prever grandes vãos, o que o difere de projetos para lajes nervuradas. Principalmente em pontes e viadutos, as lajes são executadas com protensão aderente - mais antiga e feita com cordoalhas nuas dentro de bainhas metálicas que depois levam injeção de pasta de cimento. Entretanto, de 15 anos para cá existe a cordoalha plastificada e engraxada, que ajudou a popularizar a protensão em edificações comerciais, construções de hipermercados e obras de infraestrutura.
Navas - Acredito que os projetistas se sentem mais seguros e respaldados quando todas as informações e ensaios são apresentados na norma.
Íria - A NBR 14861 - Lajes Alveolares Pré-moldadas de Concreto Protendido foi recentemente revisada e prevê ensaios para comprovação de desempenho.

Há algum tempo, a protensão era tida como um sistema caro e utilizado apenas em projetos especiais. Esse cenário mudou?
Garcia - Nos últimos anos o consumo de cordoalhas cresceu mais que a construção civil. Quem parte para a protensão não volta a utilizar lajes convencionais por conta do ganho de produtividade.
Cauduro - Protensão era tida como sistema para construção de pontes e viadutos e pouca gente sabia fazer. Essa realidade tem mudado porque o aço baixou de preço e está bem próximo do CA-50 utilizado em sistemas nervurados, passando a competir diretamente com os demais sistemas construtivos. Além disso, as vantagens são muitas, sendo que a principal é a otimização da mão de obra e a agilidade ganha na construção. Por outro lado, os softwares para cálculo estrutural também estavam todos voltados para o cálculo de concreto armado.

Quais os principais entraves à popularização?
Íria - A tributação onera em cerca de 15% o sistema de pré-fabricados. Entretanto, a obra ganha em prazo e em mão de obra.
Maurício Martins Pires - Eu ainda sinto resistência do empreendedor no mercado residencial e comercial. O cliente opta pelo sistema em último caso.
Navas - No mercado residencial, é aplicável para padrões mais elevados de obras e segmentos especiais em que o arquiteto sugere grandes vãos e lajes em balanço. No segmento vertical residencial, o empreendedor ganha vão livre no pavimento. Então ele consegue modular melhor.
Cauduro - Em segmentos comerciais a protensão é imbatível, mas há problema cultural de engenheiros e calculistas habituados ao sistema convencional. Os que resolvem estudar um pouco mais sobre protensão percebem ganhos em vagas de garagens, por exemplo, que fazem com que não voltem mais às estruturas convencionais.

E quanto ao custo?
Navas - O construtor não pode enxergar a protensão como custo adicional. É necessário comparar os cálculos e os tipos de construção a partir de todo o projeto estrutural.
Garcia - A questão é a quebra de paradigma. No mercado de aço para protensão, cerca de 32% são obras de infraestrutura, 51% é do mercado de pré-fabricados e 12% são referentes às construções residenciais e comerciais. É um mercado a ser trabalhado por construtores, empreendedores e projetistas.
Cauduro - A estrutura de um edifício não custa mais do que 20 a 25% do total do orçamento da obra. Por isso, o construtor tem que ter em mente que se optar por uma tecnologia 5% mais cara ou mais barata, ela não vai influenciar significativamente no montante, mas trará mudanças em outros aspectos, como alvenaria, altura total da edificação. Também é preciso visualizar outros ganhos, como pilares mais distantes, menos lajes de transição, garagens livres de pilares etc.

Como atestar a qualidade de projeto e execução de elementos protendidos?
Cauduro - A dica para o construtor é contratar empresas que saibam resolver problemas. Na protensão, as principais patologias ocorrem na execução do serviço, pois o concreto é posto à prova no momento da protensão. Por isso a importância de ter o apoio das empresas de protensão e do calculista.
Renato Luiz - Problemas em obras existem em qualquer segmento, mas na protensão são mais raros e sutis.
Pires - O momento crítico é respeitar a resistência mínima exigida pelo calculista.
Navas - Existem empresas que atuam nacionalmente e outras regionais. O contato delas com os calculistas é imediato, o que minimiza a praticamente zero a possibilidade de patologias. A questão da confiabilidade também deve ser estendida às concreteiras, que precisam oferecer o produto nas proporções requeridas.

O que observar com relação ao concreto?
Cauduro - São dois tempos diferentes de cura. No processo da industrializada, em geral o prazo varia entre 12 e 16 horas. Já na pós-tensão, esse prazo varia de dois a três dias para iniciar a protensão, que depois é feita em duas ou três horas.

Existem medições de desempenho?
Martins - A empresa de protensão gera um relatório de alongamentos e o calculista analisa e autoriza o andamento da obra.
Navas - Como é uma tecnologia especial, tem menos margem para erros do que o sistema convencional. Quem está envolvido tem mentalidade voltada para a qualificação e especialização do processo.

Quais as patologias mais comumente observadas?
Cauduro - Há poucas patologias tanto na execução quanto na pós-entrega. Se cumpridos os protocolos de entrega, utilizados os materiais adequados na montagem e na concretagem, o projeto é entregue como previsto.
Íria - Os sistemas existem e as normas estão em constante atualização. O elemento em si não apresenta problemas, mas é preciso contemplar as medições, esforços e condições de terreno. Do ponto de vista técnico, é preciso navegar entre as possibilidades e estabelecer as variáveis no projeto.